O olhar..

Foto: Adele Lamm


Dia desses fui até Atibaia para visitar meus pais. Era fim de semana de Páscoa e, na sexta, me arrisquei a fazer o prato que meu pai sempre tenta mas falha miseravelmente: Bacalhau no leite de coco.

Meu pai é o tipo de pessoa que só cozinha uma vez por ano e por falta de traquejo, sempre erra. Perdi a conta de quantas vezes comemos Bacalhau no leite de coco super salgado.

Não sei porque nunca havia tentado. Talvez porque nunca cheguei a me interessar e porque era mais divertido falar mal do prato. Coisa comum na minha família.

Minha mãe está bem velhinha. Hoje com 85 anos. Há mais ou menos dois anos sofreu um AVC e nunca mais foi a mesma. Tem lapsos e desiste muitas vezes de falar algo porque não consegue pronunciar a palavra ou mesmo tem dificuldade de lembrar.

No dia anterior, depois de cozinhar o Bacalhau, fui chamá-la na sala onde cochilava.

- Mãe, vamos almoçar? - chamei

- Já almocei... - ela disse me olhando

- Quando a mãe comeu?

- Não comi? - perguntou confusa

Então meu pai, que estava perto disse que ela cochilara na sala e ao acordar disse que precisava fazer o café da manhã como se fosse o dia seguinte...

Algo triste me invadiu. 

Alí, naquele momento, percebi que minha mãe começa a partir. Talvez a demência tome conta dela daqui para frente. Até o dia que ela não dê mais o sorriso que sempre dá quando chego para visitá-la.

Naquela tarde, após o almoço, eu conversava com ela sentada no sofá e ela me disse que estava vivendo demais. Desconversei e disse que ela vai até os cem anos. Menti? Quem sabe?

Já comentei com a Adele que sempre fico esperando uma ligação do meu pai ou do meu irmão comunicando sua partida. Mas, nessa tarde, tive uma impressão que esse dia está mais próximo.

A foto acima é uma de uma série que a Adele tirou comigo e ela conversando na janela mas essa em particular me chamou a atenção pelo olhar perdido dela.

O que será que ela pensava nesse minuto entre uma frase e outra?


 

Sinto que ela está cansada. Que o peso de seu corpo começa a se tornar demais pra ela.

Não vou arriscar um explicação sobre aquele olhar perdido. Talvez o fim da vida seja só isso, um olhar para o nada...


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